As loucuras do velho lenhador

Ao chegar no seu quintal, o Velho Simão estendeu a mão direita à frente e observou que ela tremia mais do que o de costume. Coçou mais uma vez a cabeça e deu por encerrado seu expediente naquele dia.
Caminhou até a árvore e ia sentando sobre um pedaço de madeira quando deu um grande salto para trás e exclamou sozinho:
— Epa!... Talvez este também seja um goleador... Ah, ah, ah! Abaixou-se e apanhou uma de suas muitas garrafinhas que escondia em pontos estratégicos do quintal. Retirou essa sob uma moita de capim, encheu o copo e, antes de beber, derramou um pouco no chão, dizendo:— Este é para São Simão... E, entornando mais um pouco, arrematou: — E este é para o Tronco goleador... Ah, ah, ah! — Virou rapidamente goela adentro, antes que se lembrasse de mais algum homenageado, o que desfalcaria o seu estoque etílico.
Pouco tempo depois, o velho lenhador já havia consumido todo o seu estoque de "medicamentos" e, lembrando-se da atitude do menino, ria e falava sozinho:
— ... Aí não, Seu Simão, aí ele vai pegar sol e chuva... e vai pegar uma gripe... Aí também não! Aí... ele vai pegar o sereno que cair das folhas das árvores e vai precisar ser internado. Ah, ah, há!
Inspirado, continuou:
— Com mil farpas, não é que aquele tronco joga bola! Quem sabe com ele a gente fosse campeão na Alemanha e a gente não perdia de 2x0, pros holandês, ah, ah, ah...
— Seleção do Brasil no ataque! Valdomiro lança para Jairzinho, que cruza para Graveto, que lança na área. Tronco entra de cabeça e é golllllllllllll do Brasil! Mais um gol do Goleador Tronco! Ah, ah, ah...
E, após lembrar-se da cena do machado, gelou e continuou falando sozinho:
— Se aquele moleque não chegasse na hora... O que seria? Eles iriam dizer: "Viu... Aquele velho maluco matou nosso goleador".
Mas eu salvei o Goleador... Talvez eu seja recompensado... É... Talvez o moço daquele jornal escreva umas linhas com escritas bem bonitas pra mim, assim:
“Lenhador herói salva Tronco goleador e vai receber de recompensa, uma medalha de ouro, muitos cruzeiros e muitas tatuzinhos”. Ah, ah, ah!
Inspirado e feliz, deitado entre folhas, serragens e ao lado de seu inseparável cãozinho, desacordou.
Capítulo 14 do livro)



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