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Yarlen e seus amigos

3 de set.
5 min de leitura
— E aquele ali... — sorriu orgulhoso, apontando para um velho tronco de madeira — é o Tronco, meu favorito — quase sussurrando, como se não quisesse menosprezar os demais.
— E aquele ali... — sorriu orgulhoso, apontando para um velho tronco de madeira — é o Tronco, meu favorito — quase sussurrando, como se não quisesse menosprezar os demais.

Concluído seu relaxamento habitual, passou a dividir suas observações entre a suprema tranquilidade do seu lago e parte da beleza do próprio recanto. Havia ali características e movimentações festivas dos pássaros, com quem também muito se identificava.

Notou que, do outro lado da colina que acabara de descer, um pouco distante, havia algo que pareciam casas. Mesmo colocando as mãos sobre os olhos para quebrar a incidência do sol, não conseguiu distinguir o que seria aquilo. Só havia um jeito de resolver o mistério: ir lá conferir.

Com passos apressados, iniciou sua escalada, percorrendo um bom pedaço de terra íngreme até finalmente se ver diante do seu objetivo.

Eram bem diferentes das casas que conhecia, principalmente por terem paredes de barro e uma estranha cobertura de palha como telhado.

Deu a volta por trás e viu no quintal um menino que corria ora para um lado, ora para o outro. Para ela, o local estranho agora tinha mais um componente: um menino que falava sozinho enquanto corria, sem decidir se queria ir ou ficar.

Ele parecia ter sua idade, de pele morena e magro. Estava sem camisa, descalço, suando enquanto se movia no pequeno espaço entre um tronco de árvore antigo, uma cadeira quebrada, um saco velho de carvão cheio de gravetos e uma porta empenada, entre outros estranhos utensílios.

Com absoluta naturalidade, chutava uma surrada bola de meia na direção dos inanimados objetos. Quando os tocava, ouvia-se seu entusiasmado grito:

— Isso... agora para mim... vai, Tronco... assim!

A bola chutada rebateu em um dos objetos, voltando para ele. Preparou seu chute diante da improvisada baliza, formada por dois pedaços de tijolos, e, cara a cara com o gol vazio, fez pose e gritou:

— Vou fazer!

Quando o gol parecia inevitável, ouviu por trás uma voz:

— Ei, chuta logo!

Desconcertado pelo susto, o menino perdeu o que certamente seria o gol mais bem-feito de sua vida. Assustado, virou-se para o velho tronco e, com a voz meio trêmula e em clima de pavor, perguntou:

— Você... falou? Preparava-se para dar o maior pique em direção ao interior da casa, quando novamente a voz, responsável por afetar sua pontaria, pareceu detê-lo.

— Ei, seu bobo. Fui eu que falei!

Virando-se para a entrada, viu de perto a ousada menina pendurada no seu portão. Indignado com a repentina intromissão, franziu a testa e, em tom nada amistoso, perguntou:

— Quem é você e o que está fazendo aqui?

— Sou Isa, e você?

— Yarlen — respondeu, olhando-a com total reprovação.

— Por que fala sozinho?

— Não falo sozinho... falo com os meus amigos!

Ela deu uma gostosa gargalhada, enquanto pensava: “Menino estranho, vê o que não existe”.

Ainda mais indignado pela incompreensível gargalhada, indagou:

— De que está rindo?

— Nada... Eu só estava pensando... Quem são e onde estão esses seus amigos?

Com naturalidade, mas nada satisfeito, ele começou sua forçada apresentação:

— Aquele é o Cansado... — apontou para uma meia-cadeira escorada na parede com apenas dois pés. — Aquele lá é o Bolão — indicou um enorme saco surrado, cheio de gravetos que, além de jogador, acumulava a responsabilidade pelo abastecimento do precário fogão a lenha. — E aquele ali... — sorriu orgulhoso, apontando para um velho tronco de madeira — é o Tronco, meu favorito — quase sussurrando, como se não quisesse menosprezar os demais.

Não se contendo, ela deu outra alta e deliciosa risada enquanto refletia: “Menino estranho, cria coisas do nada!”

— De que você está rindo agora? — perguntou ele, ainda mais indignado e impaciente.

— Nada! Achei muito engraçados esses seus amigos.

Observando o lindo sorriso da pequena Isa, que começava a cativá-lo, ele pensou: “Menina estranha, para ela tudo é muito engraçado”.

Acompanhando o tom de voz do seu interlocutor, olhando cabisbaixa para o velho tronco, ela sussurrou:

— Por que ele é o seu favorito?

— Porque, depois de mim, ele é o maior artilheiro!

— Artilheiro? O que é um artilheiro?

— É aquele que faz muitos gols!

— Artilheiro é o que faz muitos gols — repetiu ela para memorizar a informação.

— Preciso continuar o jogo! — disse o menino, tentando se livrar da inoportuna interrupção e encerrar aquele assunto.

— Não quer brincar lá fora?

— O que tem lá fora para fazer? — perguntou ele, enquanto observava o gracioso rosto da sua interlocutora.

— Podemos ir ao lago!

— Lago... que lago?

— Aquele lá! — apontou para a parte baixa, franzindo a testa.

— Que graça tem olhar para um buraco com água, com plantas e pássaros?

— Não é um buraco, é um lago! E ele é meu amigo e eu cuido dele! — rebateu ela, indignada com o fato de ele não saber distinguir um buraco de um lago.

Yarlen não se conteve e, desta vez, coube a ele produzir uma sonora gargalhada. As bochechas da menina se rosearam, como ocorria sempre que se via desafiada.

— E você, de que ri?

Envolvendo com seus braços o amigo Tronco, como se o abraçasse, em meio aos espontâneos risos, afirmou:

— Você também tem amigos gozados...

Aquela afirmação a fez também sorrir; afinal, talvez não fosse tão diferente em relação ao estranho. E ambos riram muito!

Após a sessão de gostosas gargalhadas, estavam agora mais cordatos e ela, com seu incrível poder de persuasão, conduziu seu novo amiguinho à sua parada obrigatória: o lago!

Lá sentaram-se e a curiosa menina passou a fazer-lhe uma série de perguntas, que o pequeno Yarlen, fixado no seu rosto, ia respondendo automaticamente. Após a improvisada entrevista, pôs-se de pé e, desta vez, começou a fazer sua apresentação.

— Todo dia, eu cuido deste lago! Tiro as folhas velhas, tiro os galhos das árvores que caíram e abro caminho com as minhas mãos, para a água andar por ele todo assim... — Demonstrava com as mãos, circulando-as pelas águas, promovendo sua movimentação.

Yarlen não pôde deixar de fazer sua observação mental: “Menina estranha, se preocupa com coisas bobas...”

De súbito, de uma frondosa árvore lateral, uma manga madura, que não suportara o peso dos pardais que diariamente a consumiam, despencou para dentro do lago no momento em que, eufórica, discursava.

A queda provocou um inoportuno banho na dupla, que, molhada pelos respingos, riu do acontecido. Yarlen, olhando para o lago, viu pela primeira vez uma imagem que o marcaria para sempre. O lindo rosto da pequena Isa, expressando seu envolvente sorriso, reluzia sobre a água tranquila e cristalina do lago, ou fosse lá o que fosse. Nos minutos seguintes, ouviu todo o relato da pequena Isa, hipnotizado pela inesquecível imagem.

No fim daquela tarde, cada um seguiu seu caminho. Yarlen, ainda do seu portão, pôde ver quando a menina, já na parte baixa da colina, estendeu sua mão, acenando para ele.

Embora a distância o impedisse de vê-la por completo, imaginou seu sorriso como visto sobre as águas do buraco que agora, já aceitava, pudesse ser mesmo um lago.

 

(Capítulo 4 do livro)

 
 
 

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