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Salvando o artilheiro

27 de ago.
5 min de leitura

Atualizado: 8 de set.


— Filho, quer dizer que este tronco aqui joga bola?
— Filho, quer dizer que este tronco aqui joga bola?

Desanimado, o menino empurrou seu portão e adentrou. Não precisou olhar muito para perceber que algo ali também estava diferente. Onde estavam seus amigos?

Do outro lado do corredor, Cansado estava reduzido a dois pedaços inúteis de madeira. Bolão, totalmente vazio, perdera finalmente toda aquela barriga. Tronco? Céus! E o Tronco? O menino gelou ao pensar no seu amigo Tronco. Deu um grito sem precedentes:

— Tronco!!!!!!!

Lembrou-se do Seu Simão, o velho lenhador que fornecia, mas também, quando solicitado, retirava a lenha excedente das casas e a destruía. Desesperado, saiu correndo, tropeçando nas bacias e baldes já acomodados pelo corredor para a mudança. Desvencilhou-se dos obstáculos, ganhou o enorme terreno até a cerca do vizinho. Ofegante, puxou com força o arame farpado que dividia os quintais, alargando a distância entre os fios para que pudesse passar. Abaixou a cabeça e passou com grande dificuldade, sentindo-se preso pela camisa por uma das pontas do rebelde arame, que quase lhe furou a barriguinha.

Quando pensou ter ultrapassado todo obstáculo, foi recebido com um salto — embora amistoso, inconveniente para aquele momento — de Serragem, um dos filhotes de vira-lata que ainda não aprendera a tomar conta do local, mas adorava fazer festa a qualquer um que se aproximasse, mesmo em momentos impróprios.

Yarlen nem pensou duas vezes: deu um grito e se livrou do pequeno animal, que o abandonou rapidamente, saindo em disparada. Ele não tinha tempo para arames nem para amabilidade naquele momento em que um amigo estava desaparecido e, certamente, correndo risco de vida. Por isso, continuou correndo em direção ao fundo do quintal do Velho Simão, deparando com uma grotesca cena.

De costas, o Velho Simão erguia acima da própria cabeça um velho e histórico machado, cuja lâmina brilhava com o reflexo do Sol. Abaixo, como se tremesse diante do inevitável, Tronco estava prestes a receber o fatídico golpe que o faria encerrar a brilhante carreira de artilheiro, transformando-o, literalmente, em uma simples e inútil perna de pau.

O menino reuniu todas as suas forças, quase esgotadas pela tristeza da separação da sua amiga, e, colocando seu pulmão à prova, desferiu outro sonoro e estridente grito:

— Nãaaaaaaaaao!!!!!!!

O Velho Simão balançou e pareceu gelar com o susto; não fosse sua grande experiência de vida ao longo dos seus 70 e poucos anos, teria desabado com seu próprio machado. O velho virou-se para o menino, colocou o machado no chão e, sem entender nada, ouviu o mais estranho pedido de sua vida:

— Por favor, Seu Simão, não mate o meu amigo e artilheiro! — disse o menino, em prantos. O Velho Simão, entendendo agora muito menos, coçou a cabeça embranquecida pela idade, esticou sua barbicha russa suja de serragem, olhou em volta e, furioso pelo susto que recebera, bradou com o intruso:

— Com mil farpas! Escute aqui, seu... pirralho... — O velho se conteve para não dizer um de seus costumeiros palavrões. — Comece logo a explicar a razão do susto que você me deu — disse, apontando-lhe o dedo.

O menino, sem perder o fôlego, emendou enquanto chorava:

— Por favor, Seu Simão, eu cato para o senhor um monte de galhos e gravetos, mas, por favor, não mate o Tronco. Ele é meu amigo e artilheiro! Com toda sua experiência, o lenhador nunca tinha passado por algo parecido e tratou logo de entender:

— Escute! Esse seu desespero é porque eu ia cortar este velho... tronco? — disse, apontando para o velho pedaço de árvore.

Ainda sobre o impacto da cena, o menino concluiu:

— Ele não é um tronco qualquer... Ele é meu amigo e artilheiro...

O velho quis ter certeza do que estava ouvindo e, já demonstrando mais paciência, perguntou:

— Filho, quer dizer que este tronco aqui joga bola?

— Sim! Ele é o maior artilheiro depois de mim...

— Santo Deus! — disse o velho, arriando o corpo para sentar-se no chão, enquanto alisava a barbicha russa e observava o menino, que prosseguia em seu apelo:

— Por favor... Seu Simão...

— Pare, pare, pare com isso, eu não tenho mais idade para ouvir choramingo de criança... Pode levar esse seu tronco goleador — arrematou o velho.

— Artilheiro... — corrigiu o menino, já mais calmo.

— Que seja, leva logo ele daqui... Eu preciso urgentemente do meu medicamento! E, dando as costas, caminhou até uma árvore e apanhou, enrolado numa flanela, seu medicamento: uma garrafa de conhecida aguardente da região. Colocou meia dose no copo plástico, pensou no susto que recebera e falou consigo mesmo:

— Bem, hoje eu preciso de uma dose maior...

Completou a dosagem, enchendo totalmente o copo, virando-o rapidamente goela adentro. Ao virar-se, viu o menino empurrando com grande dificuldade seu amigo Tronco pelo quintal. Simão não resistiu e gritou:

— Espere, filho...

O velho abaixou-se, segurou com firmeza o tronco e, como se lhe desse uma bonita cambalhota, transportou-o para o ombro. O menino achou bonita a cena, mas o dia não lhe concedia motivo algum para sorrir.

— Onde você quer que eu coloque esse seu amigo goleador?

— Artilheiro... Seu Simão... — corrigiu mais uma vez o menino.

— Coloque no meu quintal... por favor... O lenhador, com o tronco no ombro, seguiu quintal adentro, seguido passo a passo pelo menino. No local designado, Simão desceu o tronco do ombro e o posicionou no centro do terreno. Preparava-se para retornar quando o menino interpelou:

— Por favor... Seu Simão, aí ele vai pegar sol e chuva...

O lenhador coçou a cabeça, colocou novamente o tronco no ombro, carregou-o até mais à frente e o posicionou debaixo de uma árvore. O menino voltou a observar:

— Aí também não! Aí... ele vai pegar o sereno que cair das folhas das árvores...

— Com mil farpas! — resmungou o lenhador.

Com o rosto todo vermelho, provocado pela combinação do peso com o calor, passou a mão sobre o rosto suado e já começava a pensar na infeliz ideia que tivera ao se oferecer para transportar aquele pedaço de lenha velha.

Tentando manter a calma, colocou novamente o pesado tronco no ombro e, para evitar novo fracasso de posicionamento, tratou de esclarecer:

— Diga, filho, onde vamos deixar de vez esse seu tronco?

— Ali, debaixo da telha de zinco! — disse Yarlen, finalizando sua escolha.

Aliviado, o velho desceu mais uma vez do ombro o pesado tronco, colocou-o debaixo da choupana e tratou de se retirar o mais rápido possível, antes de um novo pedido ousasse surgir. Antes de dobrar o beco que dividia os dois terrenos, o Velho Simão não resistiu: parou, olhou para trás e viu o menino ao lado do tronco, feliz, como se o abraçasse, e concluiu, falando consigo mesmo:

— Que coisa estranha, esse menino. Pensa mesmo que um velho pedaço de madeira joga bola e é seu amigo, e ainda goleador... Ah, ah, ah! Preciso de mais um medicamento!

 

 (Capítulo 13 do livro)

  

 
 
 

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